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Como estão a ser tratados os doentes com hipertensão pulmonar no contexto COVID-19?

Com o apoio da MSD Portugal, a News Farma organizou um webinar dedicado à “Hipertensão pulmonar na era COVID-19”. “Como estamos a tratar os nossos doentes” foi a questão que serviu de mote à sessão que juntou o Dr. Nuno Lousada, coordenador da Consulta de Hipertensão Pulmonar do Hospital Pulido Valente – Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (HPV – CHULN), a Dr.ª Filipa Ferreira, coordenadora da Unidade de Hipertensão Pulmonar do Hospital Garcia de Orta (HGO), em Almada, e a Dr.ª Ana Mineiro, assistente graduada de Pneumologia da Unidade de Insuficientes Respiratórios/Unidade de Cuidados Intermédios do HPV-CHULN.

Devido à pandemia da COVID-19, seguir os doentes já diagnosticados com hipertensão pulmonar tornou-se um desafio diário, pelo risco de exposição à infeção nas idas aos hospitais e aos Centros de Referência para as consultas ou até mesmo por necessidade de testes de rotina. Assim, enquanto coordenador da Consulta de Hipertensão Pulmonar do HPV-CHULN, o Dr. Nuno Lousada foi questionado sobre como se tem gerido a situação de pandemia, mais especificamente sobre os desafios e a forma como esta veio impactar a vida dos doentes já diagnosticados com hipertensão pulmonar.

De acordo com o coordenador da Consulta de Hipertensão Pulmonar do HPV – CHULN, graças às equipas de excelência e das medidas gerais que foram tomadas, a situação não foi difícil gerir a situação. “Fomos falando com os doentes, através de contacto telefónico. E, por isso, os doentes sabiam que numa situação de urgência da sua clínica do dia a dia, podiam falar connosco”, explicou, completando: “Conseguiu-se estabelecer uma relação entre todos para que os doentes nunca tivessem um problema específico com as terapêuticas especiais que têm de fazer e a maneira de obter essa terapêutica através do hospital”.

Segundo o Dr. Nuno Lousada, foram integrados alguns doentes e foi necessária uma seleção em termos dos meios auxiliares de diagnóstico, o que levou também a uma alteração das consultas de rotina.

“Com dois meses e meio de pandemia, creio que temos conseguido estabelecer uma relação muito satisfatória com os doentes. Tivemos algumas situações de descompensação, para as quais conseguimos criar toda uma estrutura, em que o doente chegava, era avaliado em termos da sua situação de Infecciologia e do apoio das consultas, etc. Um pouco como todo o País, creio que também o nosso Centro de Hipertensão Pulmonar foi respondendo à situação”, declarou o Dr. Nuno Lousada.

Foi também na qualidade de coordenadora da Unidade de Hipertensão Pulmonar do HGO que a Dr.ª Filipa Ferreira esclareceu sobre o que foi pensado para a reorganização do serviço e se tinham sido feitos novos diagnósticos: “A primeira coisa que fizemos foi evitar deslocações desnecessárias dos doentes ao hospital, mas fazendo com que eles sentissem que estavam a ser acompanhados. Para isso, fizemos um contacto telefónico a todos os doentes a informar que as consultas não estavam canceladas, mas para se manterem atentos porque iam todas ser realizadas telefonicamente”. Segundo a cardiologista, nesse mesmo telefonema era feita a triagem para aferir a necessidade de deslocação ao hospital para mais métodos complementares de diagnóstico e foram reforçadas as medidas de distanciamento social.

“Como a infeção não foi tão descontrolada como inicialmente se pensava, sempre conseguimos manter a nossa atividade de diferenciação na hipertensão pulmonar e isso foi muito importante. Portanto, nenhum dos nossos elementos médicos da equipa foi destacado para outros serviços”, declarou, assinalando, no entanto, que “na área da Enfermagem já foi um pouco diferente”, ainda que “sempre que houvesse necessidade de terapêutica endovenosa ou titulação terapêutica de um fármaco vasodilatador pulmonar, que precisasse de supervisão da Enfermagem, de forma programada, fosse possível fazer”.

A Dr.ª Filipa Ferreira referiu ainda que as primeiras consultas foram igualmente mantidas, sendo que a situação era avaliada previamente quanto à gravidade do caso, no sentido de se perceber se também aqui havia necessidade de deslocação ao hospital ou se a consulta poderia ser feita por telefone.

Relação entre hipertensão pulmonar e COVID-19

Segundo a Dr.ª Ana Mineiro, “nos doentes com hipertensão pulmonar, por um lado, há um menor número dos recetores ACE2, o que, aparentemente, seria uma vantagem porque com menos recetores, menos SARS-CoV-2 se liga e entra nas células”. “Por outro lado, os doentes com hipertensão pulmonar têm uma menor expressão da via endotelina 1, que diminui a expressão dos recetores ACE2. Contudo, a terapêutica da hipertensão pulmonar utiliza antagonistas desta via e, portanto, um grupo terapêutico que são os antagonistas da endotelina, poderia conferir uma desvantagem a estes doentes”, notificou, apontando ainda a redução dos níveis de óxido nítrico como outra desvantagem.

Porém, tal como disse a Dr.ª Ana Mineiro, o que se sabe é que “existem poucos casos descritos de SARS-CoV-2 em doentes com hipertensão pulmonar” e, por isso, esta patologia parece não conferir maior risco de adquirir a infeção, mas sim de um curso mais grave, devido à menor capacidade de resposta fisiológica à infeção e “ao próprio processo fisiopatológico da infeção pelo SARS-CoV-2”.

De acordo com a Dr.ª Ana Mineiro, é importante transmitir aos doentes que:

  • Devem manter cuidados recomendados à população de risco (máscara, desinfeção, distanciamento, confinamento – mas mantendo atividade física);
  • Não fumem (diminui defesas, aumento ACE2 nas vias aéreas e pulmão);
  • Mantenham a terapêutica habitual (incluindo corticoterapia inalada, ventilação não invasiva, adequada higiene brônquica);
  • Recorram aos serviços de saúde.

Como têm sido tratados os doentes com hipertensão pulmonar?

Quanto à necessidade de intervenções cirúrgicas para os doentes do grupo 4 (hipertensão pulmonar tromboembólica crónica), o Dr. Nuno Lousada referiu que, no HPV – CHULN, existem doentes à espera de tromboendarterectomia pulmonar, que não foram considerados urgentes (à exceção de um doente). Com a retoma das atividades, estes doentes serão tratados no Hospital de Santa Marta.

Relativamente à angioplastia pulmonar por balão, também não existiram casos de necessidade urgente e, portanto, os doentes ficaram igualmente à espera de receber este tratamento no HPV – CHULN que já “tem bastante experiência”.

Sobre o tratamento farmacológico para estes doentes do grupo 4, a Dr.ª Ana Mineiro garantiu que a “monitorização em termos analíticos foi decorrendo bem, com uma excelente colaboração da equipa de Enfermagem”. “Em termos de disponibilização de fármacos, tivemos também um grande apoio da nossa Farmácia Hospitalar, já que eles próprios tiveram a iniciativa e promoveram a disponibilização aos doentes que se deslocavam ao HPV – CHULN, para um maior período de tempo; enviando pelo correio, para casa de alguns doentes que residiam mais distantemente, e até disponibilizando nalgumas farmácias comunitárias”, completou.

Por sua vez, a Dr.ª Filipa Ferreira afirmou que “relativamente à terapêutica farmacológica, ou seja, aos fármacos vasodilatadores pulmonares que são medicamentos hospitalares, geridos pela Farmácia Hospitalar, também tivemos uma excelente colaboração deste Serviço, que assegurou sempre a medicação por períodos mais longos, evitando assim que os doentes se deslocassem desnecessariamente ao hospital”.

“Relativamente às intervenções da hipertensão pulmonar tromboembólica crónica, devo dizer que, o facto de estarmos em pandemia não nos fez alterar a prática clínica na abordagem destes doentes. Portanto, nós continuámos a oferecer aos doentes a melhor opção terapêutica que atualmente é, à luz do conhecimento atual, a tal cirurgia de tromboendarterectomia pulmonar com potencial curativo”, acrescentou.

Antes de terminar o webinar, o Dr. Nuno Lousada aproveitou para apelar aos colegas que “quando estiverem a ver doentes se lembrem que estes podem ter hipertensão pulmonar”, uma vez que “a sintomatologia não é específica” e “continua a haver atrasos no diagnóstico”. O cardiologista enalteceu ainda o facto de se ter verificado “entre os diversos elementos dos serviços de saúde, a nível hospitalar e da Medicina Geral e Familiar, uma melhor ligação e um maior espírito de colaboração”, algo que espera “que se mantenha e se desenvolva para o futuro”.

Por sua vez, a Dr.ª Ana Mineiro recordou “que os números da hipertensão pulmonar variaram ao longo dos anos” e, por isso, “corre-se o risco, muitas vezes, de não se ir ao âmago da questão e tentar perceber exatamente o que se está a passar”. “Devemos estar sempre à procura do que não encaixa, procurando os elementos dissonantes porque são esses que levam ao diagnóstico”, frisou, realçando igualmente o estreitamento da interligação entre especialidades médicas.

“Creio que, apesar de não estarmos bem preparados, conseguimos evitar o pior, sendo que para isso foi muito importante a atitude responsável da maioria dos portugueses. E não menos importante foi a mobilização do Serviço Nacional de Saúde que, mais uma vez, se mostrou ser absolutamente indispensável. Temos de manter a nossa resiliência, o esforço de todos vai ter de continuar. É importante confiar nas instituições de saúde”, concluiu a Dr.ª Filipa Ferreira.

Reveja aqui webinar na íntegra.

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