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COVID-19 e aparelho digestivo: as sequelas que vão além da prestação dos cuidados de saúde

Tendo em conta as sequelas que têm vindo a ser identificadas no aparelho digestivo desde dezembro pelos especialistas, que acompanham os doentes com COVID-19, a Sociedade Chinesa de Gastrenterologia compilou estes dados, perspetivando os efeitos a longo prazo nesta especialidade. A News Farma  falou com o Prof. Doutor Rui Tato Marinho, presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), que, além de identifcar os sintomas desta nova doença associados ao aparelho digestivo, faz um alerta aos efeitos nefastos da crise pandémica nos cuidados de saúde, principalmente no foro gastrenterológico. Leia a entrevista na íntegra, na qual o especialista comenta estes dados mais recentes.

News Farma (NF) | Quais são as principais conclusões deste estudo divulgado pela Sociedade Chinesa de Gastrenterologia?
Prof. Doutor Rui Tato Marinho (RTM) | O impacto desta pandemia tem sido muito elevado na prática da Gastrenterologia. Três aspectos a salientar:
Por um lado, a existência de sintomas referentes ao aparelho digestivo, que não serão dominantes nesta infeção. No entanto, é de estar atento à presença de vómitos, diarreia e alteração das provas hepáticas.

Em segundo lugar, a possibilidade de transmissão fecal, a formação de aerossóis durante as endoscopias altas (endoscopia digestiva alta, CPRE e ecoendoscopia). Gostaria de acrescentar a eventual de formação de aerossóis durante o reprocessamento dos aparelhos e do uso do canal de trabalho durante o procedimento. Estes riscos, sabendo de alguns casos de profissionais de saúde infectados, leva a que a nossa atitude de proteção individual, do grupo de profissionais de saúde, da instituição e dos próprios utentes, tenha que ser uma regra de oiro. O uso dos Equipamentos Individuais de Proteção vem acrescer os custos e reduzir o número de exames.

Por último, houve necessidade e a imposição superior seguindo regras internacionais de priorizar os exames. Ficaram alguns exames por fazer. Mas estamos todos a fazer um esforço muito grande para retomar a actividade pré-COVID.

NF | A COVID-19 já revelou que mesmo depois de ser curada pode deixar sequelas. Que implicações tem esta nova doença no aparelho digestivo? Pode afetar o controlo de outras patologias desta especialidade?
RTM | As sequelas são mais a nível do aparelho respiratório e outras decorrentes do internamento prolongado em Cuidados Intensivos (consequências motoras, neurológicas, nutricionais, etc). A necessidade de reduzir os exames endoscópicos tem sido o mais marcante. Muitos deles são insubstituíveis para os portugueses. Em ritmo normal o país faz cerca de mil colonoscopias por dia.

NF | Numa altura em que é urgente retomar a prática clínica presencial, qual deve ser o papel do gastrenterologista na identificação destas lesões?
RTM | O papel do gastrenterologista é único, estou a falar de exames como a colonoscopia, endoscopia, CPRE, ecoendoscopia. Se pensarmos nos números andaremos perto dos 700 mil exames ano ou mais. Relembro que 1/3 dos cancros dos portugueses são do aparelho digestivo (esófago, estômago, cólon e reto, pâncreas, fígado). O gastrenterologista tem que ser chamado desde já para ser ouvido e ajudar e ser ajudado) a planear a retoma. Temos colaborado com a DGS e a Ordem dos Médicos.

NF| No seu contexto hospitalar, já foram identificados casos semelhantes aos reportados no estudo chinês?
RTM | O nosso contacto com a COVID tem sido através de alguns dos nossos elementos que têm integrado as equipas mais alocadas a este tipo de doentes. Por outro lado, estamos sempre prontos para intervir nas complicações do foro digestivo que poderão surgir nos doentes COVID internados em Cuidados Intensivos.

NF | Tendo em conta estes resultados, qual deve ser a linha de atuação do gastrenterologista?
RTM | Não há País, nem Sistema de Saúde que seja sustentável sem o gastrenterologista. Temos que retomar a nossa atividade de forma segura e tão rápida quanto possível. Os cancros não esperam, nem pedem para entrar: sabemos que por mês irão surgir quase 1.500 portugueses com o novo diagnóstico de cancro.

Temos que ser ouvidos no planeamento estratégico a curto, médio e longo prazo. Estamos no terreno há muitos anos, temos contactos internacionais, temos uma excelente Gastrenterologia. Queremos continuar a ser úteis, ajudar a diagnosticar, prevenir e tratar muitas das doenças graves e menos graves dos nossos cidadões. Estamos muito atentos às regras de segurança da nossa prática, o uso de equipamentos de proteção, desinfeção da sala, tipo de salas a utilizar, testes a realizar aos utentes.

Em tempo de guerra e um pouco de Medicina de catástrofe e de “damage control” as medidas têm que ser rapidamente adaptadas à evolução da pandemia, considerando também as particularidades epidemiológicas, que, como sabemos, podem diferir consoante o grupo etário, os Hospitais, Centro de Saúde e as zonas geográficas do País. Os números falam por si: 1/3 dos cancros dos portugueses, 10% da mortalidade global, três das 10 principais causas de morte dos portugueses são doenças do aparelho digestivo (cancro do cólon e reto, estômago e doenças do fígado).

 

Aceda aqui ao documento na íntegra.

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