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Eficácia da transfusão de plasma convalescente em doentes com COVID-19 grave

Estudo piloto publicado na PNAS mostrou que uma dose de 200 ml de plasma convalescente foi bem tolerada e permitiu uma rápida neutralização da virémia e da melhoria dos sintomas clínicos de doentes com COVID-19 grave. A taxa de fatalidade do grupo de doentes tratados com plasma convalescente versus não tratados com plasma convalescente foi de 0% e 30%, respetivamente. Os doentes de ambos os grupos tinham características basais semelhantes.

A terapia com plasma convalescente tem sido aplicada na prevenção e tratamento de muitas doenças infecciosas há mais de um século, incluindo no tratamento, com sucesso, do SARS (Cheng Y et al. Eur. J. Clin. Microbiol. Infect. Dis. 2005), MERS (Ko J H et al. Antivir. Ther. 2018) e pandemia H1N1 2009 (Hung IF et al. Clin. Infect. Dis. 2011).

Dada as semelhanças virológicas e clínicas entre SARS, MERS e COVID-19, Duan K et al. (PNAS 2020) resolveram avaliar a eficácia e tolerância do plasma convalescente no resgate de doentes com COVID-19 grave. Para esse fim, os investigadores realizaram um estudo piloto em três hospitais para explorar a exequibilidade do tratamento com plasma convalescente em dez doentes graves com COVID-19. Em simultâneo, um grupo controlo foi formado através da seleção aleatória de 10 doente da coorte, tratados nos mesmos hospitais, e que correspondiam em termos de idade, género, e gravidade da doença, aos dez doentes do ensaio clínico. As características basais dos doentes eram similares, mas os outcomes foram diferentes.

Entre 23 de janeiro e 19 de fevereiro de 2020, dez doentes graves com COVID-19 (seis homens e quatro mulheres), com uma mediana de idades de 52,5 anos, foram tratados com o plasma convalescente com altos títulos de anticorpos neutralizantes (pelo menos 1:160). O tempo mediano desde o início dos sintomas até à admissão hospitalar e transfusão de plasma convalescente foi de 6 e 16,5 dias, respetivamente. Dos dez doentes, quatro tinham doenças crónicas: doenças cardiovasculares e/ou cerebrovasculares e hipertensão.

Uma dose de 200 ml de transfusão de plasma convalescente permitiu que todos os sintomas nos dez doentes, especialmente a febre, tosse, falta de ar e dor no peito, desaparecessem ou melhorassem amplamente ao fim de 1 a 3 dias após transfusão. Também num espaço de três dias se verificou uma rápida neutralização da virémia e um aumento da saturação da oxihemoglobina. Por exemplo, após transfusão, dois de três doentes que estavam com ventilação mecânica passaram para oxigenação por cânulas nasais de alto-fluxo; um doente que estava sob oxigenação por cânulas nasais de alto-fluxo, descontinuou essa oxigenação e um doente que estava sob oxigenação por cânulas nasais de baixo-fluxo, mudou para oxigenação intermitente.

Após a transfusão, também se verificou uma redução das lesões pulmonares (embora de forma mais lenta em relação à melhoria dos sintomas clínicos); uma melhoria da linfopenia e uma redução dos marcadores de inflamação ou de disfunção hepática, incluindo uma redução dos valores da proteína C reativa, ALT e AST. Não obstante, os investigadores referem que os doentes que receberam plasma convalescente antes de 14 dias após o início da doença (tal como observado para os doentes com SARS), apresentaram um rápido aumento de contagem de linfócitos e diminuição da proteína C reativa, com uma notável absorção das lesões pulmonares na TAC.

Quanto aos eventos adversos, apenas um doente apresentou uma mancha vermelha facial evanescente, não havendo registo de eventos adversos graves.

Com base nos resultados deste estudo piloto, Duan K et al. consideram que existem dois fatores-chave para o sucesso desta terapia com plasma convalescente: o 1.º é o uso de altos títulos de anticorpo neutralizante (> 1:80) e o 2.º é o momento em que se administra a transfusão. Embora tenham verificado um benefício notável nos doentes que receberam plasma convalescente antes de 14 dias após o início da doença, os investigadores consideram que o momento ótimo de administração deve ser determinado no futuro.

Em termos de outcomes dos doentes do estudo, verificou-se uma diferença significativa nos resultados. No grupo que recebeu o plasma convalescente, três doentes tiveram alta médica e sete estavam prontos para a receber, enquanto que no grupo que não recebeu o plasma convalescente, três doentes morreram, seis doentes estavam estáveis e um estava a melhorar.

Apesar dos resultados notáveis obtidos no grupo de doentes tratados com plasma convalescente, os definitivos benefícios clínicos necessitam de mais investigação, dado que todos os doentes receberam também tratamento antiviral, não se podendo excluir a contribuição ou sinergia desse tratamento com o plasma convalescente. Adicionalmente, alguns doentes receberam glucocorticoides, o que pode ter interferido com a resposta imune e o atraso na eliminação do vírus.

Por esse motivo, os autores defendem que a dose ótima, o momento da administração do tratamento e os definitivos benefícios clínicos do plasma convalescente necessitam de mais investigação em ensaios clínicos aleatorizados.

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